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domingo, 20 de março de 2011

Curso “LITERATURA, FUTEBOL E NEGAÇA


Salve. Positividade. Com licença para um chamado.

Edições Toró, Sarau da Fundão e Coordenadoria de Bibliotecas da Secretaria Municipal de Cultura de SP - SMC convidam para o curso “LITERATURA, FUTEBOL E NEGAÇA".

Considerando as fintas, impedimentos e soladas das relações étnico-raciais brasileiras, abrindo rumos para vivências em Arte/Educação que contemplem questões ancestrais e urgentes da população negra e do povo brasileiro em geral. Atentando à forma e ao conteúdo (separados tantas vezes falsamente).

Com oficinas, aulas teóricas, projeção de vídeos, fotografias e músicas, leituras dramáticas e mapas.

Cinco encontros aos sábados, de 02 a 30/04/2011.

02/04 – "100 anos jogando com a raça: discriminação, ascensão social, pátria e grandes negócios”, com Flavio Francisco (Historiador e Pesquisador das Mídias Negras do começo do Século XX) e Uvanderson Vítor (Sociólogo, Pesquisador das Desigualdades Sócio-raciais Brasileiras)
Com textos de Nelson Rodrigues, Gilberto Freire e João Antônio

09/04 - "De Retratos a Chuteiras – A Nação envergonhada", com Monica Cardim (Fotógrafa e Arte-Educadora, Mestranda em Estética e História da Arte).
Com textos de Lima Barreto

16/04: "Corpo Negro em futebol e teatro: Dramaturgias, cenas e ritual", com Evani Tavares (Atriz, Angoleira, Doutora em Artes pela UNICAMP):
Com textos de Cidinha da Silva e Oduvaldo Vianna Filho

23/04: "O baque do Maracanã 50 e o goleiro Barbosa – enquadro e projeção”, com Renata Martins (Cineasta atuante em Direção, Roteiro e Montagem. Educadora em Artes Visuais)
Com textos de Eduardo Galeano

30/04: "Do campinho ao estádio: Geografia das emoções e Imagens da bola preta" - com Billy Malachias ( Mestre em Geografia Humana, Pesquisador do NEINB/USP e Consultor do MEC)
Com textos de Plínio Marcos, José Roberto Torero e do cordelista José Soares


Na Biblioteca Helena Silveira: Rua Doutor João Batista Reimão, 146 (Atrás do Terminal Campo Limpo)

GRATUITO para 35 participantes, com distribuição de certificados ao final do curso.

INSCRIÇÕES no sítio www.edicoestoro.net ou na Biblioteca tel: 5841-1259

Pedagoginga - mais reflexão e menos marketing, mais fogueira e menos fogos de artifício

Allan da Rosa/ Edições Toró
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Realização: Edições Toró, Sarau da Fundão e Coordenadoria de Bibliotecas da Secretaria Municipal de Cultura de SP - SMC

Articulação Pedagógica: Allan da Rosa

Concepção do cartaz: Mateus 'Subverso'

Fonte: e-mail enviado por Allan da Rosa em 17 de março de 2011.

quarta-feira, 10 de março de 2010

O problema de Adriano mascara o racismo ao jogador negro

Por Ricardo Riso

Adriano, o ótimo atacante do Flamengo, volta a ser o centro das atenções do noticiário sensacionalista que domina o país. Infelizmente, o que ele melhor sabe fazer, que é jogar futebol, fica em segundo plano em razão das atitudes tomadas pelo conturbado jogador. Entretanto, o massacre midiático, o julgamento e as rápidas definições para o problema de Adriano revelam os diversos preconceitos ocultos em nossa sociedade.

Adriano incomoda por ser um negro que contraria as estatísticas. Oriundo da favela Vila Cruzeiro, conseguiu vencer na vida e se tornou um jogador bem sucedido na sua profissão, com um salário estratosférico para os padrões nacionais, mas compatível com o mercado mundial da bola. Adriano, incomoda ainda, ou o melhor seria dizer que Adriano agride a sociedade ao não renegar as suas raízes, o seu passado, ao sempre lembrar que veio da favela e que jamais a abandonará. Ele procura preservar a sua identidade e se refugia nela quando o andamento dessa sua vida de jovem rico cria obstáculos.

Esse vínculo com o passado é discriminado pela sociedade que se quer branca, limpa e bem sucedida. Chega a ser tratado com hostilidade, pois não se pode aceitar que aquele negro condenado ao fracasso histórico e natural que todos nós, negros, sofremos, tenha atingido um patamar de vida invejado por muitos, possa continuar frequentando favelas e permanecer entre negros e pobres.

Com isso, a hipocrisia e o racismo à brasileira emergem com todas as suas garras das profundezas de uma sociedade que se idealiza branca. Logo, os julgamentos são postos e repetidos à exaustão. Adriano já foi chamado de alcoólatra, dependente de cocaína, envolvimento com o tráfico etc. Adriano já afirmou que tem problema com bebida, mas daí a ser chamado de alcoólatra há uma distância imensa, prova de total desrespeito com o indivíduo. O pior é que são acusações sem que nada tenha sido comprovado e citadas a todo instante, pois é exatamente isso que se espera de um negro. Para nós, negros, principalmente entre os poucos que conseguem aparecer com destaque na sociedade brasileira, exige-se uma conduta exemplar, puritana, sem desvios nem erros.

A imprensa, ávida por escândalos, fica impaciente e espera a primeira escorregada (muitas vezes sem checar se o caso realmente aconteceu, prática que tem se tornado comum em nossa digníssima imprensa) de um atleta negro para iniciar o apedrejamento que será acompanhado com voracidade pela sociedade. Aqui, temos um grave problema do mundo contemporâneo: a obsessão pela vida privada dos seus ídolos. Contudo, outro aspecto vem à tona: o mórbido prazer em acompanhar a destruição de um ídolo, com maior interesse se for um negro vindo da miséria. Trata-se de um interesse universal, apenas para citar alguns casos notórios, podemos recordar o artista plástico negro Jean-Michel Basquiat (o maior nome da arte americana nos anos 1980), o pugilista Mike Tyson, e aquele que vinha sendo apontado até o ano passado como o próximo fracassado, o nosso Ronaldinho Gaúcho. Mas este parece que irá contrariar as estatísticas novamente. Rapaz insistente.

Penso que cabe uma reflexão profunda a respeito da (de)formação de jogadores realizada nas categorias de base dos clubes brasileiros. Nossos jogadores chegam ao time profissional com um comportamento cada vez mais fútil, individualista, deslumbrado e imaturo. Cercados por empresários e dirigentes inescrupulosos que os vêm como mercadorias e perpetuam o tráfico negreiro em nosso país, pelas marias-chuteiras (negras são raras) que eles jamais poderiam possuir na condição de negros miseráveis e invisíveis, vemos jovens negros sendo entregues à própria sorte, desorientados e sem estrutura emocional para a mudança brusca de vida que, graças ao talento com a bola, os proporcionou tudo o que a Casa Grande os rejeitou. Os exemplos são vários, em diferentes níveis, são os Ronaldos, Robinhos, Joões, Silvas... o do momento chama-se Adriano. E todos pedem socorro.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

À procura da bola limpa


Bola limpa é aquela bola que o atacante com sua habilidade, astúcia e técnica ganha do seu adversário e a entrega em condições ideais de passe ou finalização ao seu companheiro, ou bola limpa é aquela bola que o zagueiro retira, de forma legal, do seu oponente e a recupera para o seu time, limpando a área e o perigo de gol.


A recente conquista do campeonato brasileiro pelo Flamengo, tendo Andrade como o primeiro técnico negro a ganhar este título, me fez recordar vários momentos em que o negro é inferiorizado e discriminado no futebol, o que poderia ser uma metonímia da sociedade brasileira. A soma dessas lembranças motivou a criação deste blog.


Sendo assim, proponho a discussão das relações étnico-raciais no futebol brasileiro, englobando as situações entre os jogadores, técnicos, dirigentes, torcidas e mídia, ou seja, questões pertinentes que raríssimas vezes são debatidas. Temas que são verdadeiras bolas divididas. Todavia, ao mencioná-las, espero contribuir para a reflexão acerca do racismo em nossa sociedade e quebrar os estereótipos impostos pela perversidade da linguagem estabelecida e sobre a figura do jogador negro, incluído no mundo do futebol como o artista da bola, porém excluído das posições de liderança e de “saber” que cercam este mundo.


E quem sabe um dia a diversidade étnico-racial brasileira seja respeitada não só no futebol, mas em toda a sociedade, e tenha a generosidade de um jogador que passa uma bola limpa ao seu companheiro.


Ricardo Riso